O Rigor e o projeto de pesquisa:
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Toda quantificação é uma qualificação..
Um Outro Rigor:
Ademais, artefatos e procedimentos de pesquisa
precisam desenvolver, acima de tudo, sensibilidades e compreensões
intercríticas, na medida em que produzem mediações
entre culturas diferentes: a cultura do pesquisador, a cultura
do contexto dos atores sociais, etc.
O projeto se caracteriza quando nos preocupamos e somos
inflexionados em direção ao futuro, com nossas previsões,
nossas incertezas, nossos questionamentos, nossos objetivos.
Hannah Arendt percebe no projeto a manifestação de um
querer que quer pensar a ação, dar-lhe sentido.
O Rigor teórico:
Ao concluir a coleta de
informações, as inspirações teóricas são retomadas fazendoas
trabalhar criticamente com os âmbitos das interpretações
saídas da concretude das realidades estudadas. Neste encontro,
tensionado pelos saberes já sistematizados e “dados” vivos da
realidade, nasce um conhecimento que se quer sempre enriquecido
pelo ato reflexivo de questionar , de manter-se curioso.
O Rigor e a construção dos dados:
Ademais, artefatos e procedimentos de pesquisa
precisam desenvolver, acima de tudo, sensibilidades e compreensões
intercríticas, na medida em que produzem mediações
entre culturas diferentes: a cultura do pesquisador, a cultura
do contexto dos atores sociais, etc.
Assim, o rigor na construção dos “dados” passa por técnicas
de pesquisa que não podem ser avaliadas fora do debate sobre
a cultura técnica que atravessa os artefatos e procedimentos de
pesquisa. Cultura técnica que, aliás, não resolve apenas nossas
necessidade tecnológicas, mas que também se impõe como um
poder que configura, formata e produz necessidades e subjetividades.
Cuidar da eficiência técnica dos nossos artefatos de
pesquisa, naquilo que se configura a sua coerência epistemo
lógica, metodológica, sua eficiência em nos ajudar a apreender
facetas da realidade, testá-los na sua capacidade de informar,
não está desvinculado da perspectiva ética e política com as
quais interferem nas realidades humanas. Entrevistas, por
exemplo, como qualquer dispositivo das pesquisas qualitativas,
não podem deixar de ser consideradas um encontro entre seres
humanos. Entre-vistas, é assim que começo a provocar o senso
epistemológico e ontológico dos nossos alunos pesquisadores
em nossos encontros metodológicos.
Rigor Hermenêutico e heurística técnica:
Após um certo tempo de imersão em campo, tempo que
pode variar segundo a problemática do objeto pesquisado e/ou
de suas especificidades de contexto – uma pauta que tem a ver
com rigor e validade nas pesquisas qualitativas -o pesquisador
deve indagar-se sobre a relevância dos seus “dados”, tomando
mais uma vez como orientação suas questões norteadoras e
outras compreensões saídas do contato direto com o objeto
pesquisado. Tal reflexão aponta para o recurso que se denomina
saturação dos “dados” , indicativo da suficiência das informações
e da possibilidade do início das análises e interpretações
finais e mais sistematizados do conjunto do corpus empírico.
Este momento jamais é visto como momento estanque e definitivo,
pois é possível retornar-se várias vezes ao campo à procura
de maior densidade e detalhamento (macedo, 2007)
.
A partir deste momento, os pressupostos fenomenológicos
em pesquisa nos recomenda a redução. Aqui se determina e se
seleciona as partes da descrição que são consideradas “essenciais”
, e aquelas que no momento não sejam avaliadas como
significativas . O propósito deste momento é distinguir – sem
fragmentar e sem perder suas relações − o objeto da consciência,
isto é, os acontecimentos, as compreensões, ou outros aspectos
que constituam, marquem e sejam marcados pela experiência
visada em termos compreensíveis. A técnica usual e comum
para realizar a redução fenomenológica é denominada variação
imaginativa. Consiste em refletir sobre as partes da experiência
que nos parece possuir significados cognitivos, afetivos e conotativos,
e, sistematicamente, imaginar cada parte como estando
presente ou não na experiência. Neste processo de filtragem
contextualizada e encarnada, o pesquisador se capacita em
“reduzir” a descrição para chegar à consciência da experiência,
constituindo a partir daí as unidades de significação. No
começo, estas unidades devem ser tomadas exatamente como
propostas pelos sujeitos que estão descrevendo os fenômenos
empregados e seus etnométodos. Posteriormente, o pesquisador
transforma estas expressões em expressões próprias
do discurso que sustenta o que está buscando a partir da
intercriticidade construída. Finalmente, obtêm-se a síntese
das unidades significativas que vêm das várias fontes de informações
e dos vários sujeitos da investigação. Aqui, pluralidade,
densidade, detalhamento e contextualização são recursos que,
se articulados, dão a “medida” da confiabilidade das pesquisas
qualitativas. A existência no mundo é precisamente aquilo
que deve ser compreendido, conceitualizado e teorizado nesta
perspectiva (macedo, 2007).
.
Algumas operações cognitivas são comuns na interpretação
das informações obtidas a partir de uma pesquisa qualitativa:
distinção do fenômeno em elementos significativos; exame
minucioso destes elementos; codificação dos elementos examinados;
reagrupamento dos elementos por noções subsunçoras;
sistematização textual do conjunto; produção de uma “metaanálise”
ou uma nova interpretação do fenômeno estudado.
.
Desde que amplas noções subsunçoras apontem para as
respostas efetivadas pelas questões de pesquisa presentes
no projeto, em face da densidade de dados e acontecimentos
que figuram e são subsumidas por estas noções, bem como
apresentem potencialidades e provocações analíticas densas
e relevantes, emerge o momento de estabelecer relações e/ou
conexões entre as noções subsunçoras e seus elementos. É neste
momento que se inicia o esforço de organização e síntese, que
vai ter seu momento final nas considerações conclusivas. É o
momento também de estabelecer totalizações relacionais com
contextos, realidades culturais e históricas conectadas com a
problemática analisada e constitutiva do objeto de pesquisa,como
demonstra de alguma maneira a tópica abaixo, onde não
se verifica fragmentação, mas distinção relacional entre o objeto
de pesquisa e seus contextos, que se (in)formam mutuamente.
Acontece aqui a construção das respostas às questões formuladas
quando da edificação da problemática da pesquisa; a elaboração
de meta-análises onde poderão brotar novas interpretações, novos
conceitos, proposições e reflexões sobre o próprio processo
de construção da pesquisa e seus resultados.
É possível a agregação por identificação de outras experiências
interpretadas, através da triangulação ampliada, que
não tem a função de validar a pesquisa, como na triangulação
mais restrita ao contexto específico do objeto de pesquisa, mas
de enriquecer a dialogia compreensiva, ampliando as reflexões
sobre o fenômeno pesquisado, a partir de contextos heuristicamente
relevantes.
.
Triangular fontes e “dados” durante uma coleta de “dados”,
torna-se uma maneira de perceber o movimento do fenômeno
que constitui o objeto de pesquisa em seu recorte contextual.
Permite enriquecer o caráter perspectivista da pesquisa quali-
tativa. A idéia de triangulação não significa fechar-se em três
ângulos de compreensão, mas, acima de tudo, trabalhar com vários
ângulos, ampliar os contextos de emergência do fenômeno
que estudamos e enriquecê-lo também em compreensão. Ao
acolher, como próprio da condição humana a heterogeneidade,
o procedimento de triangulação é mais do que um dispositivo
de pesquisa, é atualizar na pesquisa, a própria condição humana
e sua emergente complexidade. Relatividade, complexidade e
dissenso são possíveis na medida em que a triangulação opere
numa pesquisa qualitativa. A idéia de triangulação ampliada
nos recomenda abrir as interpretações para experiências que
se identificam com, e expressam a problemática da pesquisa,
não para conquistar validade, como dissemos anteriormente,
já conquistada nos âmbitos da triangulação do contexto específico
do objeto de pesquisa, mas para enriquecer a dialogicidade
com relações diversas que o objeto realiza em outros contextos
de compreensão. Neste caso, a triangulação torna mais largo o
espectro de compreensão da pesquisa, abrindo a pesquisa para
a possibilidade de uma generalização analítica.
.
Os próprios procedimentos de investigação inerentes
aos dispositivos metodológicos em pesquisa qualitativa, demandam
uma competência pluralista, por isso ser a técnica
da triangulação de ampla importância. Enfim, a triangulação
é um dispositivo que dá um valor de consistência às conclusões
da pesquisa, pela pluralidade de referências e perspectivas
representativas de uma dada realidade com a quais trabalha;
é um dispositivo totalmente orientado para a emergência da
heterogeneidade. O recurso da triangulação é um modo não
apenas de validar, mas de estabelecer relações para que se evite
a máxima das pesquisas objetivistas de que tudo deverá ser
estudado de forma separada em nome do rigor. Esse entendimento
vem ao encontro do habitus histórico a nós ensinado
e por nós aprendido de que devemos compreender o mundo
separando coisas inseparáveis.
.
Preocupados com a validação sempre dialogicizada dos
seus estudos, um procedimento cada vez mais utilizado entre
os pesquisadores qualitativos é a “confrontação” das suas interpretações
conclusivas com as opiniões dos atores implicados
na situação pesquisada. Esta espécie de validação eticamente
orientada, porquanto amplia a perspectiva e o cariz dialógico
e inclusivo da pesquisa qualitativa, não se refere somente
aos atores diretamente implicados, outros atores da comunidade
acadêmica que vivenciam reflexivamente a situação
da pesquisa e têm uma experiência significativa quanto ao
fenômeno estudado, podem muito bem ampliar a dialogicidade
e a dialeticidade da investigação. Aqui, não só os resultados
são socializados, mas, também, o método acolhido e o próprio
processo da investigação.
.
Vale continuar realçando que a pertinência/validade de
uma pesquisa qualitativa, encontra-se na própria natureza
filosófica destas, na medida em que os critérios de valor-relevância
em geral embasam sua construção e conclusões. Nestes
termos, faz-se necessário estabelecer uma legítima comunidade
crítica colaborativa e/ou apoiadora . Garantiríamos assim, a
desconstrução da estrutura dura, etnocêntrica e arrogante
do rigor fisicalista de cariz aristotélico/newtoniano, trazendo
para este cuidado a noção de rigor fecundo, mediado por uma
epistemologia socialmente implicada e referenciada.
.
apresentamos alguns
tópicos que apontam, agora, para o rigor na escolha da interpretação
qualificada que, de alguma maneira, sintetizam as
expectativas dos argumentos acima configurados, que denominamos
de analisadores:
• Proporciona uma visão mais autêntica e rica do contexto do
que outras;
• Constrói um retrato interconectado e coeso do fenômeno;
• Dá acesso a novas possibilidades de sentido;
• Trabalha com muitos contextos culturais e históricos onde
o fenômeno emerge;
Roberto Sidnei Macedo 107
• Dialetiza e dialogiza as interpretações já disponíveis sobre o
fenômeno estudado;
• Relaciona particularidade e generalização, todo e parte;
• Indica uma consciência das forças éticas e políticas que
constroem a interpretação;
• Trabalha com os sentidos nascidos do encontro com os atores
sociais oriundos de lugares sociais distintos;
• Conecta pesquisa, qualidade de vida, múltiplas justiças e bem
comum social;
• Por consequência, impregna-se de criticidade.
.
Sobre a Crítica:
Da nossa
perspectiva, este analisador críticidade deve ser fundante de
qualquer atitude de pesquisa. Ademais, atrai para as reflexões do
pesquisador e sua comunidade a necessidade de indagar sobre a
pertinência social, ética e política da pesquisa e suas intenções.
Trata-se de um analisador que põe a pesquisa no seu inerente
lugar: um território contestado. Se toda pesquisa porta ideologias
e impacta decisões humanas, a crítica passa a representar uma
prática fundante de constituição dessa própria pesquisa.
Uma perspectiva crítica, escreveu Gramsci, envolve a habilidade dos
seus adeptos de criticar as estruturas ideológicas que eles utilizam para
entender o mundo...Analisando as noções de Dewey e de Gramsci sobre
a autoprodução, considerando os objetivos da hermenêutica crítica vis-avis
à pesquisa qualitativa crítica, começamos a obter um insigth de como
funciona esse processo interpretativo ambíguo e reservado, o que nos
faz caminhar para uma direção crítica, pois entendemos que os “fatos”
não exigem simplesmente determinadas interpretações. (KINCHELOE, J.
McLAREN, 2006, p. 289-290)
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